Irão ameaça levar guerra ao Índico e analista guineense sente que há um novo capítulo na disputa com os EUA

Maputo (O Destaque) – O conflito entre o Irão e os Estados Unidos poderá ganhar uma nova dimensão geográfica caso sejam retomados os ataques norte-americanos. A advertência partiu esta quarta-feira de Yahya Rahim Safavi, conselheiro militar do líder supremo iraniano, que admitiu a possibilidade de a frente de guerra avançar do Golfo Pérsico e do Mar Vermelho para o Oceano Índico e, eventualmente, para além dele.

A declaração foi divulgada pela agência iraniana Fars e surge num momento em que as tensões já envolvem áreas estratégicas como o Estreito de Ormuz, o Mar Vermelho e Bab el-Mandeb. O eventual alargamento ao Índico colocaria o conflito mais próximo de importantes rotas marítimas internacionais e da base militar conjunta norte-americana e britânica de Diego Garcia.

Em reacção ao O Destaque, o analista guineense Fransual Dias considera que a ameaça iraniana deve ser compreendida no contexto da disputa entre Teerão e Washington e não apenas como uma declaração isolada.

Para Dias, o Irão entende que está perante uma fase decisiva da confrontação com os Estados Unidos e procura demonstrar que dispõe de capacidade para responder caso novos ataques sejam realizados.

“O Irão, ao declarar que não tem medo dos Estados Unidos, sabe que deve ser a última oportunidade para lutar de forma efectiva.”

O analista considera que a actual confrontação ultrapassa a questão militar e envolve também uma disputa pelo equilíbrio de poder internacional.

Segundo Fransual Dias, os Estados Unidos procuram limitar a capacidade estratégica do Irão, enquanto Teerão tenta preservar a sua autonomia e fortalecer relações com outros actores internacionais, incluindo a China e a Rússia.

Índico entra no cálculo

Na leitura do analista, a referência ao Oceano Índico não deve ser vista apenas como uma ameaça retórica. Dias entende que Teerão poderá estar a sinalizar a possibilidade de ampliar os pontos de pressão caso o conflito seja retomado.

“É para atingir as zonas que ainda não atingiu”, afirmou, referindo-se à possibilidade de uma expansão das operações para novas áreas marítimas.

A advertência iraniana, contudo, não especifica quais seriam os alvos ou operações que poderiam ocorrer no Oceano Índico. Safavi limitou-se a dizer que, perante uma nova guerra, a frente poderia avançar até ao Índico “ou mesmo mais além”. ([CNA][1])

O aviso ocorre depois de o conflito já ter alcançado o Mar Vermelho, onde os Houthis do Iémen ganharam posições estratégicas junto à costa e ao Estreito de Bab el-Mandeb, uma passagem marítima fundamental para o comércio entre a Ásia e a Europa.

Uma guerra que mexe com a geopolítica

Fransual Dias entende que uma eventual expansão do conflito poderá produzir efeitos para além do Médio Oriente.

Na sua análise, está em causa também uma disputa mais ampla sobre energia, comércio internacional e influência entre grandes potências.

O analista aponta para a utilização do dólar nas transacções petrolíferas e para o fortalecimento das relações entre Irão, China e Rússia como elementos de uma transformação no sistema internacional.

“O jogo do multilateralismo é que está em causa”, afirmou.

Dias considera ainda que uma eventual perturbação das rotas de transporte de petróleo poderá ter consequências económicas para vários países, sobretudo num momento em que o Estreito de Ormuz continua no centro da disputa. Antes da actual guerra, por essa passagem circulava cerca de 20% do petróleo mundial, segundo a informação citada pela Lusa.

O perigo de uma nova frente

A advertência iraniana surge enquanto Washington e Teerão mantêm contactos diplomáticos. Funcionários dos dois países realizaram esta semana conversações em Nova Iorque, à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas, numa tentativa de encontrar uma saída para o conflito. Entre as condições apresentadas pelo Irão estão o levantamento das sanções económicas e a libertação dos seus activos congelados no estrangeiro.

Para Fransual Dias, apesar da escalada retórica e militar, ainda não é possível concluir que uma guerra regional mais ampla seja inevitável.

“Vamos ver como é que isso vai ficar, mas acredito que não será uma guerra para breve”, afirmou, embora admita a possibilidade de continuidade dos confrontos e de novas frentes de tensão.

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