Maputo (O Destaque) – O presidente da Associação de Apoio aos Agentes da Polícia e Instituições Penitenciárias (AMAPAIP/AMOPIPE), Nazário Muanabane, considera que as manifestações pós-eleitorais contribuíram para o agravamento do clima de insegurança vivido pelos membros das forças de defesa e segurança, num contexto marcado pelo aumento de assassinatos de agentes da Polícia da República de Moçambique (PRM).
A posição foi manifestada em entrevista ao jornal O Destaque, na sequência de mais um caso de baleamento ocorrido recentemente na estrada que liga Mulumbela e Khongolote, onde dois indivíduos foram encontrados crivados de balas, presumindo-se que um deles seja membro da corporação policial.
Segundo Muanabane, a morte de um agente da polícia não representa apenas a perda de um profissional do Estado, mas também a perda de uma vida humana e um sinal de fragilidade das instituições responsáveis pela segurança pública.
“Quando a própria autoridade encarregue de proteger os cidadãos passa a ser vítima da violência, isso gera preocupação e insegurança para toda a sociedade”, afirmou.
O dirigente associativo alertou que os sucessivos assassinatos de agentes podem constituir um fenómeno organizado que merece uma resposta urgente das autoridades. Na sua visão, o país deve evitar que a situação evolua para um problema de maiores proporções, semelhante a outros fenómenos criminais que começaram de forma isolada e acabaram por se consolidar ao longo dos anos.
Durante a entrevista, Muanabane rejeitou a ideia de que os casos possam ser vistos prioritariamente como simples ajustes de contas envolvendo membros da corporação. Para ele, essa interpretação pode desviar a atenção da gravidade do problema e comprometer uma análise mais profunda das causas dos crimes.
O presidente da associação também abordou a questão do uso de armas do tipo AK-47 em vários dos assassinatos registados. Segundo explicou, Moçambique enfrenta há décadas dificuldades no controlo total do armamento devido aos sucessivos conflitos armados que marcaram a história do país, desde a luta de libertação nacional, passando pela guerra civil, até aos desafios mais recentes relacionados com o terrorismo em Cabo Delgado.
Manifestações e circulação de armas
Questionado sobre a possível relação entre as manifestações pós-eleitorais e os assassinatos de agentes, Muanabane respondeu de forma categórica que os protestos contribuíram para o actual cenário.
Na sua análise, durante os episódios de violência registados em algumas manifestações houve situações em que armas foram retiradas das mãos de agentes policiais, o que poderá ter aumentado a circulação ilegal de armamento. Além disso, entende que os acontecimentos alteraram a forma como parte da população passou a encarar a autoridade policial.
“As manifestações contribuíram para dois factores: algumas armas ficaram em posse de terceiros e, ao mesmo tempo, diminuiu o receio que certas pessoas tinham em relação à autoridade”, sustentou.
Muanabane considera ainda que a campanha de recolha voluntária de armas promovida pelo Ministério do Interior teve resultados limitados, defendendo que muitas das armas obtidas de forma ilegal continuam fora do controlo das autoridades.
Apelo ao reforço das investigações
Perante a sucessão de casos ainda sem esclarecimento público, o responsável defende o reforço das investigações e admite que, caso necessário, o Estado moçambicano possa solicitar apoio técnico de entidades internacionais especializadas para auxiliar na identificação dos autores e das motivações por detrás dos crimes.
Para a associação, o momento exige uma resposta firme das instituições competentes para evitar o agravamento da situação e restaurar a confiança dos agentes e da população.
Nas suas considerações finais, Nazário Muanabane apelou aos membros das forças de segurança para que continuem a cumprir as suas responsabilidades com profissionalismo, respeito pelos direitos humanos e distanciamento de qualquer acto ilícito, sublinhando que a conduta individual dos agentes é fundamental para preservar a credibilidade das instituições e facilitar o combate à criminalidade.
Segundo o dirigente, esclarecer os assassinatos de agentes da polícia tornou-se uma prioridade para a estabilidade e segurança do país, numa altura em que persistem várias dúvidas sobre a origem e os autores destes crimes.
