“Cabo Delgado deve ter uma percentagem substancial em projectos de gás”, defende Rogério Uthui

Maputo (O Destaque) – A decisão de realizar, na província de Maputo, a formação inicial de 260 jovens no âmbito da Academia Mozambique LNG reacende o debate sobre o conteúdo local e sobre a forma como as comunidades de Cabo Delgado devem beneficiar dos projectos de gás natural instalados naquela província.

Em reacção ao O Destaque, o analista Rogério Uthui defende que a formação deve manter uma dimensão nacional, permitindo o acesso de jovens de diferentes partes do país, mas considera fundamental garantir uma participação significativa dos jovens de Cabo Delgado, sobretudo nas áreas profissionais directamente relacionadas com os projectos existentes na província.

Uma percentagem substancial de lugares, principalmente daqueles para profissões que localmente existem, deve privilegiar a população local”, afirmou.

Uthui entende que o facto de a Academia estar sediada na Matola não deve, por si só, ser interpretado como uma exclusão dos jovens de Cabo Delgado. Na sua perspectiva, a questão central está em saber se as comunidades que acolhem os grandes projectos estão efectivamente a beneficiar das oportunidades geradas pelos investimentos.

Eu não iria aqui colocar-me contra os recrutamentos desses jovens em todas as partes do país”, explicou, defendendo que a iniciativa deve permitir uma verdadeira procura de talentos à escala nacional.

“Todos somos iguais”

Para o analista, não seria correcto criar uma espécie de fronteira geográfica no acesso às oportunidades. Um jovem de Cabo Delgado deve poder estudar ou trabalhar em Maputo, assim como jovens de outras províncias devem poder beneficiar de projectos implementados noutras regiões.

Em momento nenhum pode se dizer que o natural de Cabo Delgado não pode entrar em Maputo ou não pode entrar num projecto em qualquer parte. Isso não existe. Todos somos iguais”, sublinhou.

Contudo, Uthui alerta que a abertura nacional não deve significar o esquecimento das populações que vivem nas zonas de exploração dos recursos naturais.

Segundo o analista, os grandes investimentos devem ser acompanhados por políticas que assegurem benefícios concretos às comunidades anfitriãs, incluindo formação, emprego, infra-estruturas e desenvolvimento económico local.

Terrorismo e sentimento de exclusão

A discussão ganha ainda maior peso devido ao conflito armado que afecta Cabo Delgado desde 2017. Uthui reconhece que alguns estudos associam a persistência da instabilidade a sentimentos de exclusão e falta de oportunidades entre determinados sectores da população.

Neste contexto, considera que as políticas de conteúdo local devem ser desenhadas de forma a evitar que as comunidades produtoras de recursos naturais sintam que os benefícios dos projectos passam ao lado das suas vidas.

O analista recorda ainda que o Governo tem avançado com iniciativas legislativas relacionadas com o conteúdo local e com a retenção de benefícios provenientes da exploração de recursos nas zonas onde estes são extraídos.

Para Uthui, essas medidas devem traduzir-se em benefícios reais e visíveis para as populações.

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