Maputo (O Destaque) – No caos que se alojou no feriado em Macaneta, município de Marracuene, caracterizado por enchentes, roubos, violência e desordem, o sociólogo Pedrito Cambrão, em reacção ao O Destaque, considera que o ambiente vivido naquele destino turístico revela sinais de “anomia social”, marcada pelo enfraquecimento das normas que regulam o convívio entre os cidadãos.
Para o sociólogo, a concentração massiva de pessoas em espaços de lazer pode reduzir o peso da censura social e favorecer comportamentos de risco, sobretudo quando associada ao défice de educação moral, cívica e ética.
“O ambiente vivido em Macaneta no final de semana transacto revela um quadro agudo de certa anomia social, onde as normas que regulam o convívio perdem a eficácia, devido ao défice educacional”, explica Cambrão.
Na sua análise, o desafio não está apenas em formar cidadãos capazes de “saber-fazer”, mas também em educá-los para “saber-ser, saber-estar, saber-conviver e saber-respeitar”.
Pedrito defende, por isso, uma educação holística, humana e integral, assente na formação moral, ética, cívica e patriótica, sobretudo entre os jovens.
Segundo o sociólogo, em grandes concentrações humanas, o chamado efeito de massa e o anonimato podem diminuir o receio da censura social e da punição legal. O indivíduo, protegido pela multidão, pode passar a encarar comportamentos inadequados como aceitáveis.
“O anormal vira normal”, Lamenta.
Cambrão entende ainda que o espaço público corre o risco de deixar de ser visto como um bem comum, passando a funcionar como palco de egoísmo, agressividade, alcoolismo, comportamentos de risco e outras práticas que afectam o convívio social.
Álcool e perda de limites
Questionado sobre a relação entre a busca desenfreada por diversão, o consumo de álcool e situações de conflito e violência, o sociólogo considera que estes factores podem funcionar como importantes gatilhos.
“A primeira vista dá para ver que contribui como o principal gatilho”, afirma, referindo-se ao consumo excessivo de álcool e à procura imediata pelo prazer.
Na sua perspectiva, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas pode afectar a capacidade de julgamento e transformar discussões banais em confrontos físicos.
Cambrão chama ainda atenção para o risco de normalização de comportamentos que desrespeitam o consentimento e a dignidade das pessoas, incluindo mulheres, adolescentes e crianças.
Para o sociólogo, a liberdade individual não deve ser confundida com ausência de limites.
“A culpa é partilhada”
Sobre as causas da aparente perda de limites sociais em locais de lazer, Pedrito Cambrão aponta para uma combinação de factores envolvendo famílias, jovens, operadores turísticos e autoridades.
“A culpa é partilhada: as famílias falham na transmissão de valores; os jovens cedem cegamente à pressão dos pares; os operadores turísticos lucram com o consumo excessivo de álcool, sob olhar inerte e impávido de quem devia fiscalizar; e, infelizmente, o Estado falha na fiscalização”, considera.
O sociólogo entende que esta combinação pode alimentar uma cultura de impunidade e de tolerância perante comportamentos que prejudicam a convivência social.
Cambrão lamenta particularmente o envolvimento de jovens em práticas que, segundo observa, representam uma ruptura com determinados padrões de convivência e valores anteriormente transmitidos entre gerações.
Reeducação e força da lei
Para evitar que Macaneta continue a ser associada a episódios de violência, insegurança e desordem durante períodos de grande afluência, Pedrito Cambrão defende a conjugação entre educação, prevenção e aplicação da lei.
“Urge conciliar reeducação e a força da lei”, sustenta.
Entre as medidas que considera necessárias estão campanhas de educação moral, ética, cívica e patriótica nas escolas e igrejas, bem como acções de sensibilização dos jovens sobre o consumo responsável de bebidas alcoólicas.
No plano regulatório, defende limites de lotação na praia, restrições à circulação de recipientes de vidro e controlo dos horários de venda de bebidas alcoólicas.
Também propõe que o policiamento seja preventivo e dissuasor, tanto nas vias de acesso como na zona balnear, e que os operadores económicos assumam responsabilidades na segurança e no saneamento dos espaços onde desenvolvem as suas actividades.
Para Cambrão, não basta criar normas. É necessário garantir que sejam efectivamente cumpridas.
“Basta de ortodoxias, é preciso passar à orto-práxis, quer na educação, na prevenção e na punição”, conclui o sociólogo.
