Maputo (O Destaque) – O investigador e analista João Feijó considera que o combate à insurgência em Cabo Delgado continuará a enfrentar enormes dificuldades enquanto o Estado privilegiar uma resposta essencialmente militar para um conflito que, na sua perspetiva, tem raízes sociais, políticas e económicas profundas.
Numa análise abrangente sobre a situação em Cabo Delgado, João Feijó afirmou que o principal erro no combate à insurgência é semelhante ao cometido noutros conflitos da história de Moçambique, nomeadamente durante a luta de libertação nacional e a guerra civil dos 16 anos. Segundo explicou, os três conflitos possuem elementos estruturais comuns, relacionados com a centralização do poder, as desigualdades entre o norte e o sul do país e um modelo económico assente na exploração de recursos naturais, que deixa muitas comunidades locais à margem dos benefícios do desenvolvimento.
Para o investigador, a persistência dessas desigualdades faz com que muitas populações se sintam abandonadas pelo Estado, alimentandos sentimentos de exclusão e fragilizando a confiança nas instituições públicas.
Outro factor apontado por João Feijó é a própria geografia de Cabo Delgado. Na sua opinião, a mata cerrada favorece estratégias de guerrilha e dificulta a atuação de forças militares convencionais. Acrescentou que grupos armados conseguem prolongar os conflitos quando mantêm ligações sociais com parte das comunidades locais, estabelecendo bases de apoio semelhantes às verificadas noutros momentos da história do país.
O analista defendeu ainda que reduzir os insurgentes à designação de “terroristas” impede uma compreensão mais profunda do fenómeno. Segundo explicou, esses grupos possuem um projeto político e ideológico, inspirado em interpretações religiosas, e conseguiram criar formas rudimentares de administração e assistência social em zonas onde o Estado praticamente não estava presente.
João Feijó alertou igualmente para os riscos da atuação das forças de segurança contra civis. Na sua visão, sempre que cidadãos são vítimas de violência por parte do próprio Estado, agravam-se as divisões sociais e enfraquece-se a legitimidade das instituições.
“A unidade nacional não se constrói com balas disparadas pelos agentes do Estado sobre a população. Cada vez que se dispara uma bala sobre um cidadão, o Estado falha na sua missão de proteger os cidadãos e cria feridas sociais profundas que podem atravessar gerações”, afirmou.
O investigador advertiu que a fragmentação do tecido social representa um dos maiores riscos para o futuro do país, sobretudo num contexto em que sucessivas gerações convivem com conflitos armados.
Sobre uma eventual negociação para pôr fim à insurgência, João Feijó reconheceu que a estrutura descentralizada dos grupos armados dificulta qualquer processo de diálogo. Ainda assim, sustentou que a maior dificuldade poderá estar do lado do próprio Estado.
Na sua análise, será mais difícil convencer a Frelimo a implementar reformas estruturais necessárias para consolidar um processo de paz do que persuadir os grupos insurgentes a aceitarem negociações.
Relactivamente às forças locais de autodefesa, explicou que estas surgiram devido à incapacidade do Estado em garantir proteção às comunidades. No entanto, alertou para o risco de esses grupos evoluírem para estruturas armadas autónomas, sobretudo caso persistam atrasos nos apoios financeiros e um enfraquecimento das instituições estatais.
João Feijó também rejeitou a ideia de que os insurgentes sejam um “inimigo sem rosto”. Segundo afirmou, muitos dos seus líderes são conhecidos pelas comunidades locais e pelas autoridades, tendo sido identificados em diversos estudos e relatórios internacionais.
Na sua opinião, manter o discurso de que o inimigo é desconhecido representa uma recusa em enfrentar a realidade do conflito e dificulta a formulação de respostas mais eficazes.
O investigador abordou ainda a presença das forças ruandesas em Cabo Delgado, considerando que, apesar das dificuldades financeiras do Estado moçambicano, a permanência dessas tropas continuará a ser vista como essencial para garantir a confiança dos investidores internacionais e proteger os grandes projetos de exploração de gás e outros recursos naturais na província.
Para João Feijó, a estabilidade em Cabo Delgado continuará dependente não apenas da componente militar, mas sobretudo da capacidade do Estado em implementar reformas políticas, reduzir desigualdades, reforçar a presença institucional nas comunidades e reconstruir a confiança entre os cidadãos e as autoridades.
