“Abdicar do salário não basta”: Roberto Aleluia exige resultados da auditoria ao FNDS

Maputo (O Destaque) – A decisão atribuída ao novo Presidente do Conselho de Administração do Fundo Nacional de Desenvolvimento Sustentável (FNDS), Dino Foi, de abdicar do salário e de algumas regalias associadas ao cargo merece aplausos, mas deve ser acompanhada de transparência e resultados concretos, considera o analista Roberto Aleluia.

Em reacção à notícia divulgada pelo Canal de Moçambique, segundo a qual Dino Foi terá prescindido do salário, de uma nova viatura protocolar avaliada em cerca de seis milhões de meticais e do subsídio de habitação, Aleluia afirmou que encara a medida “com aplauso, mas com muita cautela”.

Na sua leitura, a decisão tem um valor simbólico num contexto em que, segundo considera, os cargos de direcção em instituições públicas são frequentemente associados a regalias elevadas.

Isso tem valor simbólico. Mostra que ele não veio ao FNDS para se enriquecer, e isso já o diferencia”, afirmou.

Entretanto, Roberto Aleluia entende que a auditoria externa anunciada por Dino Foi é mais importante do que a renúncia ao salário, por poder lançar luz sobre as contas e os projectos do FNDS, incluindo o programa SUSTENTA.

Essa sim é a decisão que pode mudar tudo, porque vai mexer em mais de dez projectos milionários, incluindo o SUSTENTA”, disse.

“O verdadeiro dinheiro não está no salário”

Apesar de reconhecer o gesto, o analista alerta que abdicar do salário não elimina, por si só, os riscos de falta de transparência na gestão dos recursos públicos.

A história de Moçambique mostra isso. Quantos gestores trabalharam ‘de borla’, mas tinham poder de assinar contratos de 100 ou 200 milhões?”, questionou.

Para Aleluia, o foco da fiscalização deve estar nos contratos de fornecimento de insumos, tractores, sementes, consultorias e outros negócios ligados ao FNDS.

O salário de PCA é troco. O verdadeiro dinheiro do FNDS não está no salário, está nos contratos”, afirmou, defendendo que a renúncia às regalias deve ser acompanhada por transparência integral nos concursos e contratos.

Auditoria deve ser pública

O analista recorda ainda que o FNDS esteve associado, ao longo dos anos, a críticas e denúncias relacionadas com a gestão do SUSTENTA, incluindo alegações de exclusão, dívidas a extensionistas e distribuição partidária de recursos.

Segundo Aleluia, um gesto individual de humildade não é suficiente para resolver problemas institucionais acumulados.

Não é com um gesto de humildade pessoal que se limpa um histórico de dez anos. Só a auditoria externa, publicada, com nomes e consequências criminais, é que vai mostrar se é ruptura ou continuidade”, declarou.

As referências a alegadas irregularidades no SUSTENTA constituem posições e denúncias mencionadas pelo analista, carecendo de confirmação pelas entidades competentes.

 “O Estado não pode depender da boa vontade de um homem rico”

Roberto Aleluia questionou igualmente a sustentabilidade da decisão de Dino Foi de continuar a viver na sua própria residência, defendendo que as instituições públicas devem funcionar com base em regras e mecanismos permanentes, e não na capacidade financeira individual dos seus dirigentes.

O Estado não pode depender da boa vontade de um homem rico. Tem que depender de sistemas”, afirmou, defendendo salários justos, concursos transparentes e prestação regular de contas.

Na sua avaliação, se a auditoria for conduzida com seriedade, publicada e acompanhada de medidas concretas, a decisão de Dino Foi poderá representar uma mudança na gestão do FNDS.

Por outro lado, caso o processo seja arquivado ou não produza resultados, Aleluia considera que a renúncia às regalias poderá limitar-se a um gesto de impacto mediático.

Abdicou de seis milhões de viatura, mas manteve o controlo de um fundo de biliões. Aí foi só um bom gesto para a capa de jornal”, advertiu.

Apesar das reservas, o analista afirma apoiar a decisão, mas sublinha que a avaliação definitiva deverá ser feita com base nos resultados da auditoria.

Eu apoio o gesto, mas vou julgar pelos resultados da auditoria. O tempo é melhor juiz de direito”, concluiu.

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