Maputo (O Destaque) – O analista político Hélio Langa considera que a candidatura única de Venâncio Mondlane à presidência do partido ANAMOLA, na convenção nacional agendada para os dias 20 a 23 do corrente mês, deve ser analisada sob duas perspectivas: a formal e a substantiva.
Candidatura única pode revelar fragilidades democráticas
Segundo Hélio Langa, do ponto de vista formal, não existe necessariamente um problema democrático, uma vez que o ANAMOLA nasceu em torno da figura de Venâncio Mondlane, visto pelos membros e simpatizantes como o principal mobilizador político e detentor de um significativo capital eleitoral.
Para o analista, muitos membros consideram consensual a liderança de Mondlane, por este ter sido o principal impulsionador da criação do partido e pela sua capacidade de mobilizar sectores da sociedade através de discursos que abordam problemas como a crise económica e as dificuldades sociais que afectam o país.
Entretanto, numa perspectiva substantiva da democracia, Langa entende que a ausência de candidatos alternativos constitui um sinal de fragilidade institucional. Na sua óptica, o partido ainda não desenvolveu mecanismos internos capazes de estimular o surgimento de novas lideranças e de promover uma efectiva competição política.
O analista acrescenta que a inexistência de concorrência pode significar que foi disseminada a ideia de que apenas Venâncio Mondlane reúne condições para liderar o partido ou que existem receios de se colocar em causa a sua elegibilidade e aceitabilidade no seio da organização.
Para Langa, a uma tentativa de personalização de figura unica do partido.
“Há uma tentativa de construir um partido que dependa inteiramente de uma única figura, criando a ideia de que o líder é insubstituível e de que só ele representa a organização”, defendeu.
O especialista alerta que a excessiva concentração de poder em torno de um líder pode desencorajar o surgimento de novas figuras políticas e enfraquecer a institucionalização partidária, transformando a organização numa estrutura excessivamente dependente da imagem e do carisma de uma única pessoa.
Por isso, defende que as organizações políticas devem promover uma cultura de democracia interna, criando espaços de participação e competição entre os seus membros, de modo que as lideranças sejam legitimadas através de processos eleitorais inclusivos e transparentes.
Oposição deve aprender com a capacidade organizativa e democrática da FRELIMO
Numa análise comparativa com os partidos tradicionais da oposição, Hélio Langa considera que a realização de uma convenção nacional pelo ANAMOLA menos de um ano após a sua criação revela novas dinâmicas políticas em Moçambique, mas também expõe as fragilidades das formações políticas históricas.
O analista recordou que, durante vários anos, tanto a RENAMO como o MDM viveram em torno de lideranças fortemente centralizadas, com reduzido espaço para o aparecimento de candidaturas alternativas.
Na sua opinião, existe o risco de o ANAMOLA reproduzir o mesmo modelo, através de convenções que sirvam apenas para legitimar decisões previamente tomadas.
“Pode tratar-se de uma convenção de fachada, onde a decisão sobre quem dirige o partido já está tomada à partida”, afirmou.
Como lição para as forças da oposição, Hélio Langa defende que partidos como o ANAMOLA, a RENAMO, o MDM e outras formações políticas devem aprender com a capacidade organizativa e democrática da FRELIMO.
Segundo o especialista, o partido no poder possui instrumentos de gestão, estatutos, regulamentos e estruturas organizativas que facilitam a participação dos membros em diferentes níveis e permitem processos eleitorais internos mais institucionalizados.
Para o analista, os partidos políticos devem criar mecanismos que promovam a participação efectiva dos membros, garantam o direito de eleger e ser eleito e permitam a renovação das lideranças através de processos democráticos.
“Não basta falar de democracia para o inglês ver. É preciso praticar a democracia dentro das próprias organizações políticas”, concluiu Hélio Langa.
