Maputo (O Destaque) – O analista Julião Cumbane lançou duras críticas à forma como o Governo actual tem conduzido os assuntos do país, defendendo que muitas decisões públicas continuam a ser tomadas sem fundamento científico e sem estudos que justifiquem as mudanças implementadas.
Em entrevista ao jornal O Destaque, Cumbane afirmou que não encontra explicações técnicas para várias reformas recentemente anunciadas pelo Executivo, incluindo alterações nos procedimentos de emissão de cartas de condução. Segundo o analista, o problema não está necessariamente nas mudanças em si, mas na ausência de estudos públicos que demonstrem a sua necessidade e eficácia.
“Não sabemos qual é o problema que o Governo identificou, quais alternativas analisou e por que razão escolheu determinado caminho. As decisões parecem surgir de forma ad hoc”, afirmou.
Ao abordar a relação entre Moçambique e o Fundo Monetário Internacional (FMI), Cumbane mostrou-se igualmente crítico. Para ele, há contradições entre o pagamento recente da dívida ao organismo e a retoma de negociações para novos financiamentos.
O analista questionou a lógica de liquidar uma dívida para, pouco tempo depois, procurar novos empréstimos junto da mesma instituição. Na sua visão, o país continua preso a um ciclo de endividamento que dificulta a construção de uma estratégia sólida de desenvolvimento económico.
As críticas estenderam-se ainda à gestão dos recursos públicos e aos elevados salários praticados em algumas instituições do Estado, particularmente no Banco de Moçambique. Cumbane considera difícil justificar remunerações milionárias num contexto marcado por carências em setores essenciais como educação, saúde e infraestruturas.
“Estamos a governar mal”, resumiu.
Num dos momentos mais contundentes da entrevista, o académico declarou que o Executivo “está a governar o país de joelho”, uma expressão utilizada para ilustrar aquilo que considera ser a ausência de rumo estratégico e de decisões sustentadas por evidências.
Como recomendação ao Presidente Daniel Chapo e ao seu Governo, Cumbane defendeu uma aproximação mais estreita à academia e às instituições de investigação, argumentando que as políticas públicas devem nascer de estudos rigorosos e não de decisões circunstanciais.
“Há universidades, há investigadores e há conhecimento disponível no país. O Governo precisa de recorrer à academia para fundamentar as suas decisões e construir soluções sustentáveis”, concluiu.
