Maputo (O Destaque) – Num momento em que o futebol mundial vive uma das maiores disputas institucionais dos últimos anos, com a UEFA a ameaçar boicotar as competições da FIFA, o comentador desportivo Alberto Maduela considera que a proposta de Gianni Infantino para abrir espaço ao investimento privado está envolta em “zonas de penumbra” e pode colocar em causa a credibilidade da modalidade.
Em declarações ao Jornal O Destaque, Maduela afirmou que o processo levanta sérias dúvidas quanto à sua transparência e defendeu que uma decisão desta dimensão deveria contar com o consenso das principais confederações do futebol mundial.
“Relativamente a este dossiê do Gianni Infantino, em relação a este suposto negócio, que no meu ponto de vista tem muitas zonas de penumbra, há que realçar alguns aspectos importantes. Se fosse um negócio transparente, com a anuência da CONCACAF, da Ásia e da própria UEFA, que é uma das confederações com maior poder no futebol mundial, a situação seria diferente. A UEFA já demonstrou que não alinha com este pensamento de Gianni Infantino e, neste momento, a CONCACAF e a Confederação Asiática também se juntaram a essa posição.”
Segundo o analista, três das maiores confederações do futebol internacional posicionaram-se contra a proposta, deixando o presidente da FIFA cada vez mais isolado.
“Neste momento, são três confederações que estão numa espécie de conspiração contra Gianni Infantino. Penso que a nossa confederação africana, como tem sido habitual, deixou para a última hora uma decisão que muito bem podia ser tomada virtualmente, chegando à conclusão e chancelando, no meu ponto de vista, pela negativa este processo, que também considero pouco transparente.”
Apesar das críticas, Maduela reconhece que os valores financeiros prometidos podem ser altamente atractivos para o continente africano.
“Se fosse um processo transparente, claramente que, para a realidade do nosso futebol africano, quando se fala de um incremento de oito para quarenta milhões de dólares, qualquer dirigente de uma federação africana pode ficar com a medula óssea mexida. Estamos a falar de valores astronómicos. Esses valores seriam um excelente orçamento para o desenvolvimento do futebol, construção de infra-estruturas, qualificação de dirigentes, treinadores e do pessoal de apoio.”
Contudo, sublinha que o dinheiro não pode sobrepor-se aos princípios de boa governação.
“Não havendo anuência desses órgãos, claramente que Gianni Infantino sente-se isolado. Acredito que, mais cedo ou mais tarde, o cerco vai apertar ainda mais e ele poderá não renovar o tão desejado mandato.”
O comentador acrescenta que já circulam informações sobre uma possível candidatura alternativa à presidência da FIFA.
“Fala-se nos corredores que existe uma intenção clara de, num futuro próximo, o actual presidente do PSG surgir como o grande opositor de Gianni Infantino nas próximas eleições.”
Para Alberto Maduela, o processo continua envolvido por muitas dúvidas.
“É um processo que deixa muitas zonas de penumbra. Não há transparência. Fala-se de valores muito elevados e eu acho que o objectivo principal nunca pode colocar em causa a qualidade do futebol. Estamos aqui a vender o futebol, parece que estamos a tratar de vender batatas. Não é assim. O futebol exige respeito por todas as instituições e empresas envolvidas. Há muitos interesses legítimos em jogo.”
Na sua leitura, a proposta dificilmente avançará da forma como foi apresentada.
“Gianni Infantino disse que se trata apenas de uma proposta, sem carácter obrigatório, mas parece que já foi crucificado. Aliás, depois do recente Mundial de Clubes, há vários dossiês que ficaram mal resolvidos e que, no meu ponto de vista, estão a manchar aquilo que será o seu legado. Penso que este processo, da forma como está a ser conduzido, não vai avançar.”
Maduela lamenta ainda a demora da Confederação Africana de Futebol (CAF) em tomar uma posição oficial.
“África, como sempre, continua à espera. Não sei se somos nós os chamados coitadinhos que querem fazer diferente. As outras confederações já se pronunciaram. A CAF ainda vai reunir dentro de uma ou duas semanas. Por que não realiza uma reunião virtual de emergência e toma uma posição? Espero que as associações lideradas por Patrice Motsepe não entrem em esquemas, ou melhor, não entrem em contradição com as posições já assumidas pela Europa, Ásia e Américas, porque isso seria um grande balde de água fria.”
O analista concluiu advertindo que os incentivos financeiros prometidos podem influenciar a decisão das federações africanas.
“Para a realidade africana, quarenta milhões de dólares representam um investimento muito significativo e isso pode influenciar algumas decisões. O receio é que se avance a pensar apenas no dinheiro e não na gestão sustentável dos fundos e no futuro das federações africanas.”
