Maputo (O Destaque) – A intervenção do governador de Nampula, Eduardo Abdula, conhecido carinhosamente por “Tio Salim”, durante uma recente actividade política, continua a provocar reacções. Depois de, na sua leitura, ter lançado um “míssil” contra os camaradas da Comissão Política da FRELIMO, o discurso mereceu a análise de Hedson Massingue.
Em reacção ao O Destaque, Massingue afirma que a posição assumida pelo governador não constitui uma surpresa, defendendo que há muito tempo alerta para aquilo que considera ser uma excessiva influência da elite política ligada aos antigos dirigentes da FRELIMO na condução dos assuntos do país.
“Nunca foi invenção. Sempre disse que o país estava refém da ingerência da elite política dos antigos dirigentes da FRELIMO, que se sentem donos do país e que podem tomar decisões fora do seu mandato”, declarou.
Para o analista, as brigadas de apoio político têm representado um peso adicional para quem é indicado para exercer funções na administração pública.
“As brigadas de apoio têm sido um grande sacrifício para quem foi indicado para gerir a coisa pública. És a prova”, afirmou Massingue, numa aparente referência ao episódio envolvendo o governador de Nampula.
O analista diz ainda que tem abordado repetidamente o que chama de “doença” da Comissão Política, apontando para aquilo que considera ser uma falta de sintonia entre a liderança e aquele órgão partidário.
“Em debates passados e quase repetitivos, sempre alertei sobre esta doença, chamada Comissão Política, onde o líder e a orquestra não estão em consonância, criando aqui um choque, como se vê em Manica”, explicou.
Na sua leitura, o actual cenário político pode colocar o país perante uma situação de dependência das decisões de um grupo restrito de antigos dirigentes.
“Um país está ficando refém por conta de um grupo de madalas egoístas, que não têm empatia com a vida humana”, acusou Massingue.
O analista questiona, igualmente, a permanência da influência dos antigos dirigentes sobre as decisões políticas nacionais, mais de cinco décadas depois da independência.
“Não é justo que, depois de quase 51 anos, os mesmos continuem a decidir sobre os mais de 35 milhões de moçambicanos, que estejam na mão de um grupo que já perdeu o prazo de validade e, para se manter nas posições, continue a mandar em tudo”, afirmou.
Massingue entende que essa influência, na sua perspectiva, seria exercida através da utilização de outros actores políticos e institucionais, em benefício de interesses acumulados ao longo dos anos.
“Usando os outros em detrimento do poder político e financeiro que foram acumulando ao longo do tempo”, concluiu.
As declarações de Hedson Massingue surgem na sequência do discurso de “Tio Salim”, que, na sua intervenção, questionou a ingerência de estruturas partidárias na governação e apelou aos camaradas para que deixassem o Executivo trabalhar.
