Maputo (O Destaque) — O anúncio de um acordo entre os Estados Unidos da América e o Irão, que prevê o fim “imediato e permanente” das operações militares e a reabertura do Estreito de Ormuz, está a gerar forte debate no meio político e económico internacional, com alertas para uma leitura cautelosa do processo.
Para o analista de relações internacionais Jaime Saia, que falou em entrevista ao Jornal Destaque, o momento deve ser interpretado sem excessiva euforia, apesar da sua relevância diplomática.
“Numa primeira fase. É preciso olharmos para o acordo que foi celebrado entre os Estados Unidos e o Irão sem muita euforia”, afirmou.
Segundo Saia, embora o diálogo represente um avanço, a dinâmica da negociação revela que o Irão pode sair relativamente mais fortalecido, por ter conseguido impor várias condições ao longo do processo.
“O Irão consegue impor algumas condições que, neste momento, os Estados Unidos e os seus aliados acabam por ceder. Portanto, há aqui um ganho para o Irão”, explicou o analista.
A possível reabertura do Estreito de Ormuz uma das rotas marítimas mais estratégicas do comércio mundial de petróleo é vista como um ponto crítico do acordo, podendo beneficiar tanto o Irão, ao reforçar a sua posição internacional, como os países dependentes da rota para exportação energética.
Contudo, o tema das chamadas “portagens marítimas” gerou críticas, incluindo do Presidente francês Emmanuel Macron, que alertou para o risco de aumento global dos preços caso práticas semelhantes se multipliquem noutras rotas internacionais.
Jaime Saia considera que tais medidas podem entrar em choque com normas do direito marítimo internacional, defendendo maior cooperação entre Estados para evitar impactos económicos globais.
Em relação a Moçambique, o analista defende uma mudança estratégica na política de importação energética, alertando para a necessidade de diversificação de fornecedores.
“É importante que Moçambique não dependa de um único canal. Quando há concentração, a economia fica vulnerável a choques externos”, sublinhou.
Sobre o impacto nos preços dos combustíveis, Saia foi cauteloso ao afastar expectativas de descida imediata, defendendo que o mercado global continua instável e sujeito a pressões geopolíticas.
“Não acredito numa descida automática dos preços. A tendência é de instabilidade, e não de alívio imediato”, afirmou.
Para o analista, o maior risco é a incerteza quanto à durabilidade do acordo, que poderá ser apenas uma trégua temporária num conflito estrutural entre as duas potências.
“O mais importante é perceber se este acordo vai resistir ao tempo ou se será apenas uma pausa estratégica”, concluiu Jaime Saia.
