De Dunshabe/Tajiquistão, (Cortesia Especial para o Jornal Destaque) – O azul do nosso planeta engana quem olha de longe, mas, vistos de perto, os desafios da água exigem contas bem feitas e decisões de peso. Desde segunda-feira, 25 de Maio de 2026, Moçambique assentou arraiais em Dushanbe, a capital do Tajiquistão, carregando na bagagem um plano audacioso que transforma a sede de infra-estruturas num mapa detalhado de investimentos.
Na 4.ª Conferência Internacional de Alto Nível sobre a Água, o país não foi apenas partilhar preocupações com os líderes mundiais; foi apresentar uma equação financeira e social calculada ao milímetro para mudar a vida dos moçambicanos na próxima década. A voz do país fez-se ouvir através do Ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, Fernando Rafael, que viajou em representação da Primeira-Ministra, Benvinda Levi. O grande trunfo levado ao Tajiquistão chama-se PROÁguaS, um robusto Compacto Nacional de Segurança Hídrica desenhado para o horizonte de 2026 a 2036.
Para que este plano ganhasse pernas jurídicas e operacionais, Moçambique activou uma reforma profunda sustentada pela Lei n.º 9/2024, de 7 de Junho, que deu vida a duas novas instituições estratégicas: a Águas de Moçambique, Instituto Público, e o Fundo de Investimento e Património do Abastecimento de Água e Saneamento, Fundo Público.
Quando falamos em transformar a realidade hídrica de uma nação, os dígitos ganham uma dimensão humana monumental. O PROÁguaS estima que serão necessários cerca de 4,5 mil milhões de dólares norte-americanos até 2036 para equilibrar a balança do acesso aos serviços básicos. Desse bolo orçamental gigantesco, a diplomacia económica e o esforço governamental já deram frutos, garantindo a mobilização inicial de uns expressivos 700 milhões de dólares.
É com este oxigénio financeiro que o país pretende encurtar as assimetrias regionais e disparar os índices de bem-estar.
Na prática, as metas de cobertura traduzem-se numa verdadeira rampa de lançamento para a dignidade social. A meta para o abastecimento de água potável é elevar a fasquia actual de 62,6% para uns ambiciosos 75% da população. No saneamento, onde o desafio é historicamente mais acentuado, o salto planeado é ainda mais vigoroso, pretendendo-se quase duplicar os actuais 38,2% para atingir os 60% de cobertura nacional.
Todo este progresso vai desaguar directamente no quotidiano das novas gerações e dos serviços de saúde, prevendo-se intervenções profundas em mais de 12 mil escolas e em centenas de unidades sanitárias espalhadas pelo território.
Mas como a água que abastece as torneiras nasce na gestão da natureza, o plano desenhou uma engenharia pesada para domar as correntes e armazenar a chuva. No xadrez das infra-estruturas, Moçambique projeta construir e reabilitar quatro grandes barragens, que serão apoiadas por uma rede capilar de mil pequenas barragens e reservatórios escavados. Para vigiar a saúde dos nossos rios e bacias, o plano vai erguer mais de 300 estações de monitoria de recursos hídricos.
Contas feitas à capacidade de retenção, o país quer ver o seu volume de armazenamento saltar de 59,2 mil milhões para uns redondos 60 mil milhões de metros cúbicos de água.
Olhando para o céu e para as ameaças que as mudanças climáticas impõem a um país costeiro, a segurança foi integrada na contabilidade do projecto. A estratégia prevê estender 330 quilómetros de diques de protecção contra as fúrias das cheias, além de investir no desenvolvimento de modelos hidrológicos avançados e na expansão de sistemas de aviso prévio.
No Tajiquistão, ladeado por especialistas como a Presidente do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres, Luísa Celma Meque, e o Director Nacional de Gestão de Recursos Hídricos, Agostinho Vilanculos, Moçambique mostrou ao mundo que o futuro da resiliência climática se constrói com base em números sólidos, visão de longo prazo e investimentos estruturantes.
