Maputo (O Destaque) – O anúncio do Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, de que cerca de 1.500 moçambicanos foram encaminhados para Portugal, no primeiro semestre deste ano, para trabalhar em diferentes sectores através do Instituto Nacional de Emprego, está a gerar reações no debate público sobre o desemprego no país.
Para o analista político e antigo deputado Augusto Pelembe, a iniciativa representa uma oportunidade para um número reduzido de cidadãos, mas está longe de responder à dimensão do desemprego que afecta milhares de jovens nacionais.
Nos últimos meses, o país tem assistido a longas filas de candidatos em processos de recrutamento, reflexo da escassez de oportunidades no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, centenas de moçambicanos regressam da África do Sul devido à crescente onda de ataques xenófobos, agravando a pressão sobre um mercado laboral já fragilizado.
Em entrevista ao Jornal O Destaque, Pelembe afirmou que enviar trabalhadores para o estrangeiro não pode ser visto como uma solução estrutural para o problema do desemprego.
“Isso não responde e não vai responder ao problema. Um governo deve criar condições para que os seus cidadãos encontrem emprego no seu próprio país. Levar pessoas para trabalhar em Portugal ou noutros países não é a solução”, defendeu.
Segundo o antigo parlamentar, o caminho passa pela industrialização da economia, pela criação de um ambiente favorável ao investimento e pela geração de emprego formal dentro do território nacional.
Pelembe apontou o Botsuana como um exemplo de gestão económica que, na sua visão, conseguiu criar oportunidades suficientes para reduzir significativamente a necessidade de emigração por motivos de trabalho.
“O Botsuana demonstra que, quando existem políticas públicas consistentes e oportunidades internas, os cidadãos não precisam de abandonar o país à procura de emprego”, afirmou.
O analista considera que Moçambique dispõe de recursos naturais, potencial turístico e condições para impulsionar o crescimento económico, mas entende que esses recursos ainda não têm sido convertidos em oportunidades para a população.
Durante a entrevista, criticou ainda o combate ao comércio informal em vários municípios, defendendo que essa actividade continua a ser a principal fonte de rendimento para milhares de famílias que não conseguem acesso ao emprego formal.
Na sua perspetiva, enquanto não forem criadas políticas capazes de atrair investimentos, fortalecer a indústria nacional e estimular a criação de postos de trabalho, o comércio informal continuará a funcionar como uma alternativa de sobrevivência para muitas famílias.
As declarações de Augusto Pelembe surgem numa altura em que o desemprego permanece entre os principais desafios socioeconómicos do país, marcado pelo regresso de cidadãos provenientes da África do Sul e pela elevada procura por oportunidades de trabalho, sobretudo entre os jovens.
