“Temos uma polícia partidária e não republicana”, defende Mariza Missa

Maputo (O Destaque) – A activista social Mariza Missa, popularmente conhecida como “Conversas Saudáveis”, criticou a actuação da Polícia da República de Moçambique (PRM) durante a recepção de Venâncio Mondlane na província de Nampula, um evento marcado por forte aparato policial e pelo registo de pelo menos uma pessoa ferida.

Falando ao Destaque, Mariza Missa afirmou que os acontecimentos não a surpreenderam, defendendo que a actuação das forças da ordem continua a ser influenciada por orientações políticas.

Feliz e infelizmente, e com muita tristeza, saber que nós estamos diante de uma polícia partidária. Nós não estamos numa polícia republicana, não. Nós não estamos numa polícia democrática, estamos numa polícia partidária, uma polícia que atua com base em ordem superior”, afirmou.

Para a comentadora, seria inesperado que uma visita de uma figura política mobilizadora decorresse sem incidentes envolvendo a polícia.

Era de se esperar. Seria anormal que um engenheiro estivesse na província de Nampula e de lá não acontecesse nada de negativo por parte da polícia. Seria algo anormal. Seria uma data na história”, declarou.

Mariza Missa dirigiu ainda uma mensagem aos agentes da corporação, apelando à reflexão sobre o uso da força contra cidadãos desarmados.

Eu, sinceramente, quero deixar aqui uma recomendação aos nossos irmãos polícias. Quando um polícia pega numa arma, aponta para um civil que não tem posse de arma, é porque alguém ordenou. O polícia, por si só, de forma alguma, irá pegar uma arma, matar, empunhar aquela arma para um cidadão civil. Pura mentira, se alguém não ordenar”, disse.

Prosseguindo, acrescentou:

Mas queríamos deixar aqui uma recomendação aos nossos irmãos polícias. Neste processo de empunharem vossas armas para os vossos irmãos civis, certifiquem-se de que do outro lado não está lá o seu filho, que do outro lado não está lá o seu irmão, que do outro lado não está lá a sua mãe, que do outro lado não está lá a sua tia, certo? Porque nunca se sabe. No meio daquela multidão, foi receber o engenheiro Venâncio Mondlane. O nosso irmão pode estar lá. A nossa irmã pode estar lá. Então, este é o meu ponto de vista em relação a esta situação, que para nós não é surpresa. Já estamos habituados nesta forma de má atuação da polícia. Mas porque alguém ordenou nesse sentido”, sustentou.

Questionada sobre a escolha de Venâncio Mondlane como candidato único do partido ANAMALA, Mariza Missa considerou que, neste momento, não identifica outra figura com a mesma capacidade de liderança dentro daquela formação política.

O partido recém-criado, o ANAMALÁ, que vem com muita força. Sinceramente, não faço parte do partido, mas obviamente olho de cada lado de fora. Não vejo ninguém neste momento com pujança para segurar este partido. Não vejo ninguém dentro do partido neste momento com pujança para enfrentar o sistema, para enfrentar os mais velhos”, afirmou.

A activista sublinhou, contudo, que os membros do partido têm o direito de apresentar posições divergentes e propor alternativas.

O partido está no livre-arbítrio de dizer não. Dizer não concordamos, nós queremos propor isto e mais isto. Estamos em democracia. Se esse partido veio para lutar pela democracia, então que proponham. Que digam, olha, senhor presidente, nós não concordamos, temos esta e aquela pessoa”, declarou.

Na sua análise, a ausência de contestação interna pode também revelar fragilidades democráticas.

Agora, se os membros do partido não conseguem dizer, diante das suas reuniões, dizer, olha, nós não concordamos, então é razão para dizer que já estamos também com problemas de democracia. Se os membros não conseguem trazer aí vossas ideias, é problema de democracia mesmo”, observou.

A concluir, Mariza Missa reiterou a sua convicção de que, neste momento, não vê outra figura capaz de assumir a liderança do projecto político.

Mas, numa opinião minha pessoal, neste momento, sinceramente, eu não estou a ver alguém no partido que pode dar andamento e bater de frente com os mais velhos”, concluiu.

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