Maputo (O Destaque) – O elevado custo de vida, o desemprego, as desigualdades sociais e a constante incerteza económica podem estar a criar um ambiente de pressão e frustração com impactos na vida dos moçambicanos.
A análise é do sociólogo Pedrido Cambrão, que, em entrevista ao Jornal O Destaque, abordou o fenómeno do Acidente Vascular Cerebral (AVC) numa perspectiva social, defendendo que as condições em que as pessoas vivem não devem ser ignoradas quando se procura compreender os desafios relacionados com a saúde.
A reflexão surge num momento em que dados do Hospital Central de Maputo (HCM), citados durante a entrevista, indicam uma média de três novos casos de AVC por dia atendidos naquela unidade sanitária.
Para Pedrido Cambrão, a sociedade
moçambicana está inserida num contexto de profundas transformações, marcado pela circulação permanente de informação e pela exposição às diferentes condições de vida existentes na sociedade.
Segundo o sociólogo, esta realidade pode gerar frustração entre cidadãos que acompanham padrões de vida que desejariam alcançar, mas que não conseguem devido às suas condições económicas.
“Estamos sempre em pressão, sempre em constante pressão, em tensão”, afirmou Pedrido Cambrão.
Custo de vida aumenta pressão sobre famílias
O sociólogo aponta o custo de vida, a falta de emprego, a instabilidade laboral e os baixos rendimentos como algumas das situações que contribuem para a insatisfação social.
Cambrão considera que mesmo pessoas empregadas podem viver num cenário de incerteza, sobretudo quando o rendimento mensal não acompanha as necessidades básicas das famílias.
Para o especialista, esta pressão é agravada pelas desigualdades económicas existentes no país, onde algumas pessoas enfrentam dificuldades para garantir necessidades básicas, enquanto outras apresentam níveis elevados de riqueza e consumo.
“Há um luxo no meio do lixo”, observou, ao descrever o contraste entre diferentes realidades sociais.
Desemprego e exclusão também pesam
O desemprego, sobretudo entre os jovens, é outro fenómeno destacado pelo sociólogo.
Cambrão entende que a falta de oportunidades e a dificuldade de melhorar as condições de vida podem alimentar sentimentos de frustração, exclusão e insegurança.
Na sua análise, a insatisfação não se limita aos desempregados, abrangendo também trabalhadores que enfrentam dificuldades salariais, falta de progressão profissional e incertezas quanto ao futuro.
Sedentarismo e alimentação entram na equação
Para além dos factores sociais e económicos, Pedrido Cambrão chama atenção para as mudanças nos estilos de vida.
O sociólogo aponta a alimentação pouco saudável e o sedentarismo como comportamentos que também merecem atenção, sobretudo nos centros urbanos.
Segundo explica, muitas pessoas passam grande parte do dia entre casa, transporte e local de trabalho, realizando pouca actividade física.
Cambrão defende, por isso, que a discussão sobre o AVC não deve ficar limitada aos hospitais, devendo igualmente considerar as condições económicas, sociais e ambientais que influenciam a vida das populações.
Uma questão que vai além da Saúde
Na perspectiva do sociólogo, combater os factores que contribuem para o sofrimento social exige também respostas nas áreas do emprego, rendimento, protecção social, alimentação e acesso aos serviços básicos.
Pedrido Cambrão entende que uma população submetida permanentemente à pressão económica e social enfrenta desafios que podem afectar o seu bem-estar de forma ampla.
Assim, perante o registo de novos casos de AVC, o sociólogo considera importante olhar também para “as condições em que as pessoas vivem”, sem desvalorizar os factores clínicos e comportamentais associados à doença.
