Maputo (O Destaque) – Da longa espera nas delegações da EDM à compra de créditos através do telemóvel, a digitalização está a transformar a rotina de consumidores em Maputo, Matola e Lichinga. Para quem já perdeu horas em filas ou percorreu quilómetros à procura de energia, a mudança representa mais do que tecnologia: significa tempo recuperado, menos deslocações e maior comodidade.
Quando comprar energia significava enfrentar outra jornada
Em 2004, quando Sofia de Alfredo chegou ao bairro de Khongolote, no município da Matola, comprar energia eléctrica exigia mais do que dinheiro. Era preciso encontrar tempo, percorrer distâncias e, muitas vezes, enfrentar filas depois de um dia inteiro de trabalho.
Professora de profissão, Sofia recorda que, naquela altura, a compra de créditos de energia podia transformar-se numa segunda jornada. Depois das aulas, ainda precisava de procurar um ponto de venda, esperar pela sua vez e regressar a casa, onde outras responsabilidades a aguardavam.

«Quando cheguei, em 2004, tinha de ir até ao piquete para comprar energia e encontrava uma grande fila, depois do cansaço do trabalho, porque eu dava aulas. Às vezes, íamos à Zona Verde ou à Primeira Rua. Quando fosse à cidade, aproveitava para comprar por lá», conta.
A distância não era o único obstáculo. O tempo perdido nas filas pesava sobre uma rotina já preenchida pelas obrigações profissionais e domésticas. Comprar energia, um recurso indispensável para o funcionamento da casa, significava interromper outras actividades para garantir que a electricidade não faltasse.
Anos depois, ao recordar essa experiência, Sofia reconhece uma mudança na forma como gere o consumo doméstico. Hoje, a necessidade de comprar energia já não implica, necessariamente, sair de casa.
«Hoje não preciso de sair. Controlo o meu contador e, quando noto que a energia está a acabar, compro através do telefone», explica, com satisfação.
A diferença parece simples: antes, era necessário deslocar-se; agora, basta utilizar o telemóvel. Mas, para quem conhece o peso das filas depois de um dia de trabalho, essa diferença representa uma alteração concreta na organização da vida quotidiana.
Francisco Zimba: da praça ao telefone
A história de Sofia encontra eco no bairro de Hulene B, na cidade de Maputo, onde Francisco Zimba também guarda recordações de um período em que comprar energia exigia sair de casa.
Em 2010, quando os créditos estavam prestes a terminar, era necessário deslocar-se à praça da Organização da Mulher Moçambicana (OMM), nas imediações das bombas de combustível, para efectuar a compra.
«Quando a energia estivesse para acabar, tínhamos de ir até à praça da OMM para comprar, levando o cartão ou o comprovativo da última recarga. Era muito chato», recorda.
O problema não se resumia à distância. A necessidade de antecipar a compra, encontrar tempo para sair e cumprir os procedimentos exigidos tornava a tarefa pouco prática, sobretudo quando a rotina diária já estava condicionada pelo trabalho e por outras responsabilidades.
Com a possibilidade de adquirir créditos através do telemóvel, Francisco diz que a experiência mudou.
«Agora é só comprar pelo telefone, sem problemas. A qualquer hora, podes comprar sem precisar de sair. Sentado, consigo recarregar sem sair de casa. Há dias em que, mesmo estando no trabalho, mando para os meus filhos», conta.
O relato revela outra dimensão da digitalização: além de facilitar a compra, o telemóvel permite gerir a energia à distância e apoiar outros membros da família, mesmo quando o consumidor não está em casa.
A praça que antes fazia parte do percurso necessário para garantir electricidade deixou de ser uma paragem obrigatória na sua rotina.
Cinco quilómetros para comprar energia em Lichinga
No Norte do país, a experiência de Joaquina Gingador, de 37 anos, ajuda a compreender como a distância podia condicionar o acesso aos serviços de compra de energia.
Residente em Lichinga, província do Niassa, Joaquina recorda o período entre 2012 e 2014, quando precisava de percorrer cerca de cinco quilómetros para chegar à delegação da Electricidade de Moçambique (EDM).
«Entre 2012 e 2014, para comprar energia, tínhamos de percorrer cerca de cinco quilómetros até à delegação da EDM, em Lichinga. Quando chegávamos, ainda tínhamos de marcar fila e esperar pela nossa vez para sermos atendidos», recorda.

Cinco quilómetros para chegar ao local de atendimento e, depois, uma espera cujo tempo dependia da fila. Para Joaquina, a compra de créditos exigia uma deslocação que consumia tempo e energia, precisamente para garantir o acesso à electricidade.
A introdução de pagamentos através das carteiras móveis, como o M-Pesa e o e-Mola, trouxe uma alternativa.
«Gostámos muito quando soubemos que a EDM tinha introduzido os serviços de pagamento de energia através do M-Pesa e do e-Mola. Facilitou muito as nossas vidas, porque passámos a poupar tempo e a comprar energia de forma mais cómoda», afirma.
Joaquina considera que a utilização destas ferramentas simplificou a relação dos consumidores com o serviço, reduzindo a necessidade de deslocações exclusivamente destinadas à compra de créditos.
«Estamos satisfeitos com esta inovação da EDM, porque tornou a compra de energia mais fácil. Hoje, temos mais facilidade e já não precisamos de fazer aquelas deslocações apenas para comprar créditos de energia», acrescenta.
Em Lichinga, tal como na Matola e em Maputo, o telefone passou a desempenhar uma função que antes dependia da presença física do consumidor num ponto de atendimento ou de venda.
As experiências são distintas, mas convergem numa mesma constatação: quando a tecnologia permite resolver uma necessidade sem sair de casa, o benefício não se mede apenas pela rapidez da operação. Mede-se também pelas deslocações evitadas e pelo tempo que fica disponível para outras actividades.
Quando a falta de energia não pode esperar
Apesar das mudanças, as recordações do período anterior à expansão dos pagamentos digitais continuam presentes na memória de outros consumidores.
Ana Cristina, por exemplo, recorda as deslocações aos postos da EDM e às bombas de combustível para comprar energia, numa altura em que os pagamentos através do M-Pesa e do e-Mola ainda não faziam parte da sua rotina.
«Antes, para comprar energia, íamos à EDM e às bombas de combustível. Antes do M-Pesa e do e-Mola, ficávamos em filas. Até hoje ainda existem, mas já não têm a mesma aderência. Era sofrimento aquilo», relata.
A sua memória remete para uma situação particularmente delicada: a possibilidade de ficar sem electricidade precisamente quando ela é necessária para preparar as refeições e assegurar as tarefas domésticas.
«Às vezes, chegas e não há energia, tens de cozinhar, mas primeiro tens de correr para ver se há alguma coisa nas bombas», conta.
A experiência mostra como uma tarefa aparentemente rotineira podia tornar-se urgente quando os créditos terminavam. A compra de energia não era apenas mais uma despesa doméstica: era uma necessidade que, em determinadas circunstâncias, não podia ser adiada.
Com a diversificação dos canais de compra, os consumidores passaram a dispor de alternativas para responder a essa necessidade. Ainda assim, o testemunho de Ana Cristina recorda que a existência de ferramentas digitais não significa, por si só, que todas as dificuldades tenham desaparecido.
Para além da compra: informação e assistência no telemóvel
A transformação digital dos serviços da EDM não se limita à aquisição de créditos de energia.
Joaquim Filipe afirma que utiliza a aplicação da empresa para comprar energia, consultar informações e procurar assistência.
«Eu uso a aplicação da EDM para comprar energia, vejo as minhas informações e recebo assistência a partir da mesma», explica.

O testemunho aponta para uma relação com o serviço que vai além da recarga do contador. A possibilidade de consultar informações e procurar apoio através de ferramentas digitais pode facilitar a comunicação entre a empresa e os consumidores.
Em Muhalaze, no município da Matola, Obadias Zunguze, residente no quarteirão 6, também descreve uma experiência marcada pela utilização do telefone.
Desde que passou a viver na sua casa, em 2025, diz que procura resolver as necessidades relacionadas com o fornecimento de energia sem ter de se deslocar.
«Desde que vivo aqui, faço tudo ao telefone. Compro energia quando acaba, até ligo para a EDM quando há um problema, e eles vêm», relata.
Para Obadias, o telefone tornou-se um meio de contacto com a empresa, tanto para comprar créditos como para comunicar problemas no fornecimento de energia.
A experiência evidencia uma mudança importante na forma como alguns consumidores procuram aceder aos serviços: em vez de se deslocarem imediatamente a um ponto de atendimento, começam por recorrer aos canais disponíveis à distância.
Contudo, a existência de aplicações e linhas de contacto não elimina a necessidade de assistência presencial quando a situação o exige. A eficácia da transformação digital também depende da capacidade de responder às solicitações dos clientes.
A aposta digital da EDM
Os testemunhos dos consumidores ajudam a perceber a dimensão quotidiana de uma transformação que também se reflecte na modernização dos serviços da Electricidade de Moçambique.
A 29 de Outubro de 2025, a EDM anunciou a disponibilização de duas novas aplicações digitais, apresentadas como parte dos esforços para reforçar o atendimento aos clientes em todo o país.
Segundo os dados divulgados pela empresa, a iniciativa destinava-se a servir mais de 3,8 milhões de clientes abastecidos em alta, média e baixa tensão. A EDM indicou ainda que mais de 99% desses clientes estavam integrados no sistema pré-pago.

Os números mostram a dimensão do universo de consumidores abrangidos pelos serviços da empresa e ajudam a contextualizar a importância de ferramentas que simplifiquem o acesso à informação, a compra de energia e a comunicação com os clientes.
A digitalização, neste contexto, representa uma oportunidade para aproximar os serviços dos consumidores. Em vez de depender exclusivamente da deslocação a um balcão ou ponto de venda, o cliente pode recorrer a canais digitais para realizar determinadas operações.
Mas a existência de aplicações não constitui, isoladamente, uma medida suficiente do sucesso da modernização. A experiência dos consumidores também depende da facilidade de utilização das plataformas, da disponibilidade dos serviços, do acesso aos meios de pagamento e da capacidade de resposta quando surgem problemas.
Por isso, a transformação digital deve ser observada não apenas a partir das ferramentas introduzidas, mas também dos resultados que produzem na vida das pessoas.
O tempo que regressa às mãos dos consumidores
Em Khongolote, Hulene B, Lichinga e Muhalaze, as histórias de Sofia, Francisco, Joaquina, Ana Cristina, Joaquim e Obadias partem de experiências diferentes, mas encontram-se num ponto comum: a necessidade de garantir energia eléctrica sem que a compra de créditos se transforme numa tarefa que consome horas ou exige longas deslocações.
Para Sofia, a mudança significa deixar de procurar um ponto de venda depois das aulas. Para Francisco, significa poder comprar energia mesmo quando está no trabalho e enviar créditos para os filhos. Para Joaquina, representa uma alternativa aos quilómetros percorridos até à delegação da EDM. Para Ana Cristina, recorda um período em que a necessidade de cozinhar podia ser acompanhada pela preocupação de encontrar um lugar onde comprar energia.

Já Joaquim e Obadias descrevem uma relação com a empresa em que o telefone também serve para consultar informações e procurar assistência.
Estas experiências não significam que todos os consumidores enfrentem as mesmas condições ou que os constrangimentos tenham desaparecido. Mostram, porém, como a disponibilidade de canais digitais pode alterar a forma de realizar uma tarefa essencial.
A tecnologia, neste caso, não se resume a aplicações instaladas num ecrã. O seu valor está na possibilidade de responder a uma necessidade concreta, reduzir etapas e devolver aos consumidores parte do tempo que antes era gasto em deslocações e filas.
A transformação pode parecer pequena para quem nunca precisou de percorrer cinco quilómetros para comprar energia. Para quem viveu essa realidade, a diferença é mais fácil de compreender.
No fim, a história não é apenas sobre a passagem do balcão para o telefone. É sobre o que acontece quando uma tarefa que exigia sair de casa passa a poder ser resolvida com alguns toques no ecrã.
