Maputo (O Destaque) — O analista político Alexandre Chiure defende que o Ministério da Saúde combata os ladrões de medicamentos e implemente um sistema descentralizado de distribuição, na sequência do anúncio do Governo de que Moçambique poderá dispor de fármacos suficientes para assegurar o abastecimento durante os próximos dois anos.
O porta-voz do Governo, Inocêncio Impissa, anunciou que o Executivo recebeu um lote de medicamentos e reconheceu a possibilidade de existirem dificuldades na sua distribuição. O governante explicou que os distritos mais próximos dos armazéns provinciais poderão já ter recebido os fármacos.
O Governo garantiu ainda que, após a recepção de todos os medicamentos solicitados, o país passará a dispor de stock suficiente para assegurar o abastecimento durante os próximos dois anos.

Em entrevista ao Jornal O Destaque, Chiure considerou que o anúncio deve ser acompanhado de medidas concretas para garantir que os medicamentos cheguem efectivamente às farmácias públicas, tendo em conta as reclamações anteriores sobre a falta de fármacos nas unidades sanitárias.
“O Governo sempre disse que havia medicamentos e nós íamos às farmácias públicas e não encontrávamos medicamentos”, afirmou o analista, defendendo que é necessário verificar, no terreno, se a promessa de abastecimento será concretizada.
Para Chiure, a aquisição de medicamentos, por si só, não garante que os utentes tenham acesso aos mesmos, uma vez que os roubos e desvios ao longo da cadeia de distribuição podem comprometer a disponibilidade dos fármacos.
“É preciso que haja um controlo muito cerrado e que se combatam os ladrões de medicamentos dentro do Sistema Nacional de Saúde”, sublinhou.
Como medida para reforçar a fiscalização, o analista propõe a criação de plataformas digitais que permitam acompanhar os medicamentos desde a sua recepção até à entrega nos hospitais e centros de saúde, facilitando o controlo dos lotes e a identificação de possíveis irregularidades.
Chiure defende igualmente que a distribuição seja organizada em três zonas — sul, centro e norte —, de modo que os medicamentos destinados a cada região sejam encaminhados directamente para pontos estratégicos, reduzindo a dependência de Maputo como centro de redistribuição.
Na sua perspectiva, os medicamentos destinados à região centro poderiam ser encaminhados através do Porto da Beira, enquanto os destinados ao norte poderiam seguir pelo Porto de Nacala. A partir desses pontos, os fármacos seriam distribuídos pelas respectivas províncias e, posteriormente, pelas unidades sanitárias.
O analista considera que este modelo poderá acelerar o abastecimento, reduzir o tempo de transporte e minimizar as oportunidades de desvio de medicamentos.
Apesar de reconhecer que a garantia de stock para dois anos seria um ganho importante para o país, Chiure alerta que o sucesso da medida dependerá da capacidade do Ministério da Saúde de organizar a distribuição e assegurar uma fiscalização rigorosa.
“Uma coisa é a promessa, outra coisa é a realidade”, advertiu, defendendo que os cidadãos devem conseguir encontrar nas farmácias públicas os medicamentos de que necessitam, incluindo os destinados ao tratamento da malária e das doenças diarreicas.
Para o analista, o reforço do stock só produzirá resultados concretos se for acompanhado de uma gestão transparente, de mecanismos eficazes de controlo e de medidas firmes contra o roubo e o desvio de medicamentos destinados à população.
