Total cria academia em Maputo para formar jovens de Cabo Delgado. Sociedade civil indignada

Maputo (O Destaque) – A decisão de realizar, na cidade de Maputo, a fase inicial da formação dos 260 jovens seleccionados para a Academia Mozambique LNG continua a gerar fortes reacções. Depois do posicionamento do Fórum das Organizações da Sociedade Civil de Cabo Delgado (FOCADE), o analista Wilker Dias considera que a medida contraria o espírito do conteúdo local e pode aprofundar o sentimento de exclusão das comunidades da província que acolhe um dos maiores projectos de gás natural do país.

Em entrevista ao Jornal O Destaque, Wilker Dias afirmou que a realização da formação fora de Cabo Delgado “não está correcta”, defendendo que iniciativas directamente ligadas aos recursos naturais da província devem privilegiar as comunidades anfitriãs.

Segundo o analista, concentrar este tipo de oportunidades em Maputo reforça uma percepção antiga de centralização do desenvolvimento e marginalização das regiões que produzem riqueza.

A realização desta formação em Maputo reflecte aquilo que sempre defendemos, que é a exclusão das populações, principalmente das regiões detentoras das diversas riquezas. A descentralização institucional seria extremamente importante e crucial, mas isso não aconteceu”, afirmou.

Wilker Dias recordou que as reclamações do FOCADE não são inéditas e sustentou que vários projectos financiados por parceiros internacionais continuam excessivamente concentrados na capital, reduzindo o impacto económico que poderiam gerar em Cabo Delgado.

Na sua análise, além da perda de oportunidades económicas para empresários locais e instituições de ensino da província, esta decisão pode produzir consequências sociais preocupantes.

Um dos primeiros riscos é a questão da discriminação étnica ou tribal. Se tudo continua concentrado em Maputo, alimenta-se a ideia de que determinadas regiões ficam sempre com os benefícios e nada sobra para Cabo Delgado”, advertiu.

O analista foi mais longe ao alertar que a exclusão das comunidades pode criar um ambiente favorável ao recrutamento por grupos extremistas.

Isso pode servir como um factor de insatisfação para a disseminação ainda maior do terrorismo. Quando as comunidades não participam e os seus filhos ficam excluídos das oportunidades, cria-se espaço para o recrutamento de jovens por grupos terroristas, que também exploram esse sentimento de exclusão”, declarou.

Questionado sobre o conceito de conteúdo local, Wilker Dias defendeu que este não pode limitar-se ao recrutamento de trabalhadores, mas deve traduzir-se em benefícios concretos para as comunidades onde os recursos são explorados.

Em Moçambique, apenas uma pequena parte da população beneficia verdadeiramente dos frutos da exploração das riquezas. Sem políticas concretas e acções que caminhem lado a lado, dificilmente as comunidades sentirão os benefícios do conteúdo local”, explicou.

Para o analista, caso a formação fosse realizada em Cabo Delgado, os ganhos seriam imediatos tanto para a população como para a economia provincial.

Primeiro, criaria um sentimento de inclusão entre as comunidades. Segundo, geraria um impacto económico directo na província. Terceiro, transmitiria uma mensagem de confiança de que Cabo Delgado continua a ser uma região com potencial para investimento”, referiu.

Wilker Dias reconheceu que podem existir preocupações ligadas à segurança, mas considera que cidades como Pemba possuem condições suficientes para acolher iniciativas desta natureza.

Acredito que Pemba oferece condições de segurança para este tipo de formação. A própria cidade recebe delegações diplomáticas e organizações internacionais. Portanto, existem condições para isso”, sustentou.

O analista defendeu ainda que empresas envolvidas na exploração dos recursos naturais devem investir de forma mais abrangente nas comunidades anfitriãs.

Essas empresas devem enriquecer as comunidades através da criação de oportunidades, do fortalecimento das instituições de ensino, da reconstrução das zonas afectadas pelo terrorismo e da inclusão das pequenas, médias e grandes empresas nacionais nos megaprojectos”, afirmou.

Embora reconheça que a TotalEnergies já tenha promovido bolsas de estudo e programas de capacitação, Wilker Dias entende que o alcance dessas iniciativas continua reduzido face à dimensão do projecto Mozambique LNG.

Tem beneficiado algumas pessoas, mas ainda é insuficiente. É preciso construir mais escolas, fortalecer universidades da região e aumentar significativamente o número de oportunidades para os jovens locais”, defendeu.

Sobre o papel da sociedade civil, o analista foi categórico.

“A sociedade civil deve monitorar permanentemente estes compromissos e denunciar aquilo que não está a correr bem. Hoje, é uma das entidades que reúne melhores condições para garantir que os benefícios dos megaprojectos cheguem efectivamente às comunidades.”

Como prioridade para assegurar que os jovens de Cabo Delgado sejam os principais beneficiários do projecto Mozambique LNG, Wilker Dias apontou o investimento na educação, a criação de programas de formação ligados às potencialidades económicas locais, bem como o desenvolvimento de projectos agrícolas, mineiros e geradores de rendimento, incluindo em províncias vizinhas como Nampula e Niassa.

Para o analista, só através de uma estratégia que combine educação, inclusão económica e descentralização será possível transformar os megaprojectos em motores efectivos de desenvolvimento para as populações que convivem diariamente com os seus impactos.

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