“Moçambique ainda está de muletas”, diz Hedson Massingue ao comentar sobre a crise de combustíveis

Maputo (O Destaque) – O fantasma de combustíveis voltou a assombrar boa parte do país. Nas bombas, jorrar combustível é quase uma operação cirúrgica, numa situação que está a criar aglomerações nas principais capitais provinciais e a levantar novas interrogações sobre a gestão do sector.

A escassez de combustível volta a preocupar os consumidores e a colocar pressão sobre o funcionamento normal da economia nacional. Nas últimas semanas, várias zonas do país têm registado uma ausência significativa deste produto, com relatos de dificuldades no abastecimento em diferentes postos de venda.

Perante o cenário, O Destaque ouviu a reacção de Hedson Massingue, que considera que a actual escassez não deve ser encarada como um acontecimento estranho, sobretudo porque surge depois de semanas marcadas por sinais de dificuldades no acesso ao combustível.

Bom, a escassez de combustível não pode ser vista como um estranho acontecimento. Primeiro, dizer que, nas últimas semanas, tem-se verificado uma ausência significativa deste líquido que move a nossa economia por completo”, afirmou.

Para Massingue, uma das questões que mais preocupa é o que considera ser o silêncio das autoridades competentes perante a situação.

Uma coisa é notar o silêncio total das autoridades competentes em relação ao assunto em alusão”, acrescentou.

O analista questiona igualmente a diferença entre a realidade de Moçambique e a de países vizinhos, com destaque para o Malawi, que, segundo a sua observação, continua a recorrer aos portos moçambicanos para obter combustível, mas tem registado preços mais baixos.

O segundo ponto tem a ver com a disponibilidade do mesmo em países como Malawi, que vem buscar os combustíveis em Moçambique, tem baixado os preços deste líquido precioso. Falamos de um dependente, mas, cá entre nós, não temos visto a mesma coisa, sendo também detentores dos tanques de reserva dos mesmos”, afirmou.

Perante esta aparente contradição, Massingue lança uma pergunta que considera central: “O que está acontecendo?”

A reflexão surge também depois de o Governo Central ter concedido à Petromoc um apoio de 50 milhões de dólares norte-americanos, destinado a mitigar as crises que a empresa vinha enfrentando.

Depois do Governo Central dar à Petromoc um apoio significativo de 50 milhões de dólares americanos, como forma de mitigar as crises que se verificavam por um tempo, mas nada mudou”, criticou.

Massingue mostra-se ainda céptico quanto a uma eventual redução dos preços dos combustíveis e questiona a forma como o sector está a ser regulado.

Hoje, além dos preços que ainda não foram mexidos, não acredito que serão mexidos, porque há quem manda mais que o chefe do Governo”, declarou.

Na sua leitura, o actual cenário pode estar relacionado com uma concentração de influência sobre o sector, que, na sua opinião, merece maior esclarecimento por parte das autoridades.

“O que se verifica é um monopólio de forças e poderes sobre quem regula o negócio”, disse.

O analista considera igualmente difícil compreender por que razão um país dependente do combustível importado pode apresentar preços mais baixos do que o país que fornece o produto.

Se for a ver, não vejo razões de um dependente vender mais barato em relação a quem vem comprar, sofre com distância, disponibilidade do mesmo diante dos seus clientes, mas, mesmo assim, não abdicam da verdadeira maneira e forma de bem servir. Refiro-me ao Malawi e à sua Presidente”, afirmou.

Na parte final da sua intervenção, Massingue recorre a uma metáfora para descrever a situação económica do país.

Moçambique ainda está de muletas, não pode andar, porque mais vale esmola do que andar com seus próprios pés para um futuro sustentável”, considerou.

Perante o cenário de escassez, filas e dificuldades no acesso ao combustível, Massingue deixa ainda um apelo ao Presidente da República:

E conclui com uma questão que permanece no centro do debate: “O povo sofre e ninguém é estabilizado. Quem comanda o controlo de combustível?”

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