Maputo (O Destaque) – Há cerca de quatro meses, Moçambique enfrentou um cenário de escassez de combustíveis que provocou longas filas nas bombas de abastecimento, incerteza entre os consumidores e receios de impactos na economia nacional. Após um período de aparente normalidade, esta terça-feira (04), voltaram a registar-se dificuldades no abastecimento em várias bombas de combustível das cidades de Maputo e Matola, reacendendo as preocupações da população.
Em entrevista concedida ao Jornal Destaque, o analista de Relações Internacionais Jaime Saia considera que o país pode estar perante um cenário semelhante ao vivido anteriormente, embora defenda que ainda é cedo para tirar conclusões definitivas.
Segundo o analista, Moçambique continua excessivamente dependente de um único corredor de abastecimento de petróleo, situação que torna o país vulnerável a crises internacionais. Jaime Saia apontou como exemplo as tensões no Médio Oriente e os constrangimentos ligados ao Estreito de Hormuz, defendendo que o país deve diversificar as suas fontes de importação de combustíveis.
O especialista recordou ainda que, durante a anterior crise, sempre defendeu a necessidade de diversificação dos fornecedores para reduzir os riscos de interrupção no abastecimento. Na sua perspectiva, a dependência de uma única rota representa uma ameaça permanente para a segurança energética nacional.
Entretanto, Jaime Saia levantou igualmente a hipótese de a escassez não estar apenas ligada a factores internacionais. O analista considera que as autoridades devem investigar se existe, de facto, falta de combustível ou se poderá haver retenção deliberada do produto com vista a justificar futuros aumentos dos preços, recordando que, na crise anterior, havia indícios de que existiam reservas suficientes, apesar das dificuldades registadas em algumas bombas.
“O Governo deve fiscalizar profundamente as gasolineiras para apurar se estamos perante uma escassez real ou perante uma estratégia para pressionar a subida dos preços”, defendeu.
Quanto aos impactos, Jaime Saia alertou que uma eventual persistência da escassez poderá agravar o custo de vida, aumentar os custos dos transportes e pressionar ainda mais os preços dos bens e serviços, afectando sobretudo as famílias de baixos rendimentos.
O analista entende ainda que a resposta das autoridades continua aquém das expectativas da população, defendendo medidas rápidas para evitar que o país volte a mergulhar numa crise de abastecimento semelhante à registada há quatro meses.
Como recomendação, apelou ao Governo para reforçar a fiscalização do sector, diversificar as origens de importação de combustíveis e adoptar soluções que garantam estabilidade no abastecimento, protegendo os consumidores e a economia nacional.
