Maputo (O Destaque) – A Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH) fechou o exercício de 2025 com uma factura pesada na sua estrutura de custos, levantando sérias interrogações sobre a gestão dos recursos públicos no sector petrolífero nacional. Enquanto a empresa justifica o crescimento galopante das despesas com a integração de novos quadros, a análise fria dos dados revela uma distribuição de verbas milionárias que merecem um escrutínio rigoroso.
No total, os gastos com a força de trabalho interna dispararam para 1.300.153.612 Meticais em 2025, superando largamente os 1.116.704.234 Meticais registados no ano anterior. Contudo, o que salta à vista é a opacidade e a desproporção de algumas rubricas num país que enfrenta severos desafios económicos.
O PESO CRÍTICO DA MASSA SALARIAL E BENEFÍCIOS
Ao desbravar os números, de acordo com o relatório financeiro compulsado pelo Jornal Destaque, percebe-se para onde vai o dinheiro que alimenta a máquina corporativa da petrolífera estatal:
- Salários base e brutos colossais: A fatia do leão recai sobre as remunerações directas do pessoal, que saltaram de 999.446.645 meticais em 2024, para os impressionantes 1.161.009.859 meticais.
- Encargos e Protecção Social: Os encargos sobre remunerações pesaram 39.907.623 meticais, enquanto a assistência médica e funerária absorveu 37.902.234 meticais.
- Gastos de deslocação e capacitação: As ajudas de custo atingiram 24.987.401 meticais, um valor expressivo em despesas de missão, a que se somam 24.721.424 meticais canalizados para a formação profissional.
- Outras rubricas menores: O relatório reporta ainda 7.102.802 meticais em outros encargos com o pessoal, 2.305.418 meticais em indemnizações, 2.147.851 meticais para pessoal em regime de estágio e avença, e uns marginais 69.000 meticais afectos à alimentação.
A justificação oficial para o aumento nas remunerações aponta para a admissão de novos colaboradores. No entanto, o ritmo de crescimento destas despesas num curto espaço de um ano abre espaço para indagações sobre a sustentabilidade e a racionalidade na afectação de pessoal e respectivos bónus numa empresa estratégica do Estado.
A “FACTURA” EXTERNA: CONSULTORIAS E LICENÇAS MILIONÁRIAS
Se internamente os valores impressionam, o recurso a prestadores externos — espelhado em relação aos Fornecimentos e Serviços de Terceiros (FST) — expõe uma dependência financeira alarmante de entidades e tecnologias estrangeiras:
- Honorários a consultores: Em 2025, a ENH entregou 66.066.069 meticais a prestadores independentes e consultores (superando os 57.790.863 meticais de 2024), levantando o eterno debate sobre a capacidade técnica instalada internamente e a necessidade constante de recorrer a cérebros externos pagos a peso de ouro.
- Assistência técnica e licenças opacas: A maior fatia desta montanha de dinheiro foi absorvida por 85.357.722 meticais direccionados à renovação de licenças informáticas e serviços especializados de engenharia de reservatórios, geologia e comercial. Estão na lista nomes sonantes e globais como Schlumberger, S&P Platts, KAPPA, IHRDC, SSL e HRS.
- Trabalhos especializados: Completam o quadro 10.313.263 meticais alocados a tarefas técnicas pontuais.
PARA ONDE CAMINHA A TRANSPARÊNCIA?
A factura combinada de salários e serviços externos na ENH demonstra que a gestão dos recursos petrolíferos continua a alimentar uma estrutura de custos pesadíssima, muitas vezes opaca para o cidadão comum. Num contexto em que o sector dos hidrocarbonetos deveria reflectir-se de forma directa no desenvolvimento socioeconómico do país, o avultar destas contas — justificado de forma linear com contratações e consultorias globais — exige uma auditoria severa e uma fiscalização muito mais apertada por parte dos órgãos de oversight e da sociedade civil.
